sábado, 1 de setembro de 2012

João Ubaldo Ribeiro - Diário do Farol



Diário do Farol é a autobiografia de um psicopata. Logo, uma história perturbadora.

Quando digo psicopata, não imagine um serial killer. Ainda que o protagonista cometa alguns assassinatos, ele não se encaixa neste perfil. Matadores em série geralmente têm como alvo um tipo específico – e aí há todo tipo de paranóia: os que detestam ruivos (O Escaravelho do Diabo, da série Vaga-Lume), os que têm trauma de noivas (As Noivas de Copacabana, minissérie da globo com o Miguel Falabella), os que matam suas vítimas de acordo com os sete pecados capitais (Seven, filme dirigido pelo David Fincher) etc etc etc.

O protagonista dessa história não é assim. Não é nenhum louco (se é que podemos chamar assim os assassinos seriais) com aversão a um típico determinado. Seus crimes sempre têm um objetivo específico, e são motivados por vingança.

A história começa com o narrador falando sobre sua infância. Ele nos conta sobre seu pai, que é um monstro que matou a esposa para se casar com a cunhada. Essa me parece a grande sacada do João Ubaldo Ribeiro: mostrar que seu protagonista sofreu demais nas mãos do pai tirano para assim gerar no leitor simpatia e compreensão. É inevitável pensar: com um pai desses, ninguém se tornaria uma boa pessoa.

É esse aspecto que me fez, ao longo de quase todo a história, suportar sem muitas dificuldades as maldades que o narrador ia cometendo. Quase todas elas estavam ligadas ao seu propósito maior: se vingar de seu pai. E por isso você vai perdoando o que ele faz.

Outro detalhe que choca é que o protagonista é padre. Seja qual for sua (des)crença, a figura de um padre evoca, ao menos num primeiro momento, bondade. E este personagem usa e abusa da confiança que a batina desperta nas pessoas, inclusive se aproveitando das confissões dos fiéis para lhes chantagear futuramente.

O narrador é esquizofrênico, embora em nenhum momento a história tente pintá-lo como alguém que não goza plenamente das faculdades mentais. Muito pelo contrário. Ele faz questão de ressaltar que não existe essa conversa de Bem e Mal – em muitas passagens, com ironia, ele destaca as conseqüências boas de maldades que cometeu, mostrando que tudo pode ser visto por diversos ângulos.

Digo que ele é esquizofrênico porque a única pessoa em que ele confia durante toda sua vida (sua primeira regra é: não confie em ninguém) é sua falecida mãe. Ele conversa com ela quase toda noite, ela é seu porto seguro e sua incentivadora. Minha conclusão de que ele é esquizofrênico não deriva de minha descrença em espíritos, e sim da coincidência de que a mãe sempre diz o que ele quer/precisa ouvir, característica da esquizofrenia. Para deixar mais claro: os diálogos que ele tem com a mãe se assemelham muito às conversas que temos com nós mesmos.

Para não me alongar mais, digo que a história gira basicamente em torno de dois objetivos do protagonista: se vingar do pai e de Maria Helena, uma mulher que o desprezou. Mas ele não era padre? Sim. E mesmo assim faz muito sexo. A começar pelo convento onde estudou.

É clichê usar a expressão “um soco no estômago”, mas foi o que eu senti no final. Como eu disse, no início da história vamos perdoando tudo o que ele faz porque concordamos que aquele crápula de pai merece sofrer a vingança. Mas seu outro alvo, Maria Helena, não. Ela é boa pessoa. Por isso, fiquei muito mal ao final da história, quando ele se vinga dela.

Aliás, a parte final do livro é a melhor. O narrador fala sobre o período da ditadura militar no Brasil e de como a usou para alcançar seus fins. Tal passagem serve para refrescar a memória a respeito da barbárie que foi cometida em nosso país naquele tempo. Todo mundo sabe desse período negro da história, mas quando você lê descrições minuciosas de torturas, a indignação vem à tona com uma força incrível. E não custa lembrar que a tortura era absolutamente legal, era política de Estado.

Passo agora a transcrever alguns trechos do livro, começando por um que fala sobre isso:

“Para um padre como eu, talvez fosse difícil reconhecer, a princípio, que o uso da tortura era necessário, mas haveria eu de convir: torturados foram os mártires da Igreja, torturados foram os mártires da democracia e das liberdades públicas, torturados foram os que resistiram à opressão soviética. Militares e sacerdotes tinham mais em comum do que se pensava, pois ambos colocavam acima de tudo sua fidelidade a princípios” (pág 251)

“Desejo estragar, ou macular definitivamente, sua falsa felicidade, se você se ilude em tê-la. Minha esperança é que ela possa mirrar ou extinguir-se inteiramente, para que você veja o mundo como ele é, ou enlouqueça, ou morra, ou ambas as coisas, pois quase todos, insisto, sobrevivem apenas porque crêem que não são sozinhos. São, sim. Você é sozinho e permanentemente ameaçado, e somente um voluntarismo animalesco lhe faz ver o mundo de maneira diversa”. (pág 12).

Ele repete algumas vezes, ao longo da narrativa, a ideia de que a vida não tem sentido:

“... uma espécie de conscientização da loucura, entendida esta como a internalização da ausência de sentido da vida, o que dana e salva ao mesmo tempo e é o único caminho não enganoso. A vida não tem sentido” (pág 17)

“Lê-se ficção para fortalecer a noção estúpida de que há sentido, lógica, causa e efeito lineares e outros adereços que integrariam a vida. Lê-se ficção... por insegurança, porque o absurdo da vida é insuportável para a vastidão dos desvalidos que povoa a Terra” (pág 10)

“Quinta lição: todo mundo mente, num grau ou noutro, e é tolice acreditar que uma pessoa não está mentindo, quando, como já disse alguém, você tem certeza de que, no lugar dela, tampouco contaria a verdade” (pág 62).

“Se eu estivesse lá, teria feito um inimigo desnecessário – pois que alguns são necessários, o que aprendi com a vida, já que nos obrigam a observar cautelas que não observaríamos se não tivéssemos inimigos, potenciais ou não” (pág 134)

“Existia algo no mundo que tornasse compulsório ou indispensável ter uma vocação? Positivamente não, trata-se de um mero preconceito. Suspeito que há bem mais gente do que eu, sob este aspecto, do que as pessoas costumam confessar” (pág 187)

“Todos, sem exceção dos oligofrênicos e de outra forma incapacitados, têm o potencial para ser felizes. Mas normas e valores arbitrários e absurdos acabam tomando por inteiro a sua mente, como uma erva-de-passarinho abafa e mata a árvore que infesta, e ele não pode ser feliz, não pode ser feliz violentando a si mesmo, como se impõe a todos” (pág 200)

“A vida é vitoriosa não quando se tem o que se costuma ver como bênçãos, ou seja, beleza, dinheiro, honrarias e assim por diante. Essas coisas podem perfeitamente conviver e até entrar em simbiose com a mais completa infelicidade. Elas não representam uma vitória, por mais que seus detentores e os que erroneamente os invejam queiram pensar assim. A vida é vitoriosa quando se satisfaz o que de fato há em cada um de nós, aquilo que de fato ansiamos e quase nunca nos permitem, nem nos permitimos, reconhecer. Preencher essa satisfação é uma tarefa cumulativa, em que a preparação é, por assim dizer, permanente” (pág 202/203)

“Não se pode ter cerimônia com o texto, tem-se que escrever o que vem à cabeça, eis que quem trabalha em excesso as palavras é um patente embusteiro narcisista. Não há o que complicar, é só escrever o que vem à mente, sem censura interna, outra estupidez inútil, assim como ler nas entrelinhas, pretensão arrogante de oligofrênicos com que subdotados se divertem e se acreditam espertos” (pág 236)

“As cidades pequenas, onde o mais comum são os cachaceiros e as beatas mexeriqueiras, constituem uma espécie de síntese da Humanidade. É nelas que aparecemos, sem as desculpas ou evasivas que o rebuliço das cidades grandes desculpa ou justifica, para dar a parecer que os indivíduos são diferentes. Não são diferentes e a vida paradisíaca das cidades pequenas, que tantos imbecis exaltam, não passa de um exercício de falsa simplicidade, em que a maldade e a má vontade inerentes à condição humana se disfarçam até mesmo em solidariedade. Não é solidariedade o que se manifesta quando, por exemplo, se acodem os necessitados, é vaidade, vaidade exercida até mesmo perante o Deus que inventaram e ao qual dizem que são fiéis, pois que, apesar de professarem a onisciência desse Deus, acreditam que ele só vê o que eles querem” (pág 239)

“Só faltava Maria Helena – e como eu ia viver depois, que sentido teria a existência? Viver para quê? Para ler uns poucos livros, ouvir umas poucas músicas, dedicar-me ao sacerdócio, viajar? A última dessas opções nunca me seduziu e tampouco consigo entender a mania que muita gente tem por viagens. Por mim, não preciso conhecer nada, não quero lugar algum, tudo já está nos livros e a realidade é sempre inferior à imaginação, como já constatei em todas as ocasiões em que estive em lugares que me pareciam atraentes. Melhor vê-los através do pensamento, através de tudo o que já se escreveu, fotografou ou pintou sobre eles” (págs 285/286).

Wall Street, o dinheiro nunca dorme.



Gostei demais desse filme. Mostra bem como a ganância dos grandes empresários do mundo, somada à vista grossa do governo norte-americano para com a estripulias do mercado resultou na crise de 2008.

Não vou falar sobre as atuações (adoro o Michael Douglas e o Shia Lebouef), sobre o enredo ou coisas do gênero. Optei por transcrever o discurso que o personagem Gordon Genko faz logo no início. Escrito aqui não passa a mesma emoção que a interpretação do Michael Douglas dá, mas vale.

“Vocês estão todos ferrados. Ainda não sabem disso, mas são a geração SEM. Sem renda. Sem emprego. Sem nenhum ativo. Vocês têm um futuro e tanto. Alguém me lembrou uma noite dessas que eu já disse: ‘a ganância é boa’. E agora parece que é legalizada. Mas, pessoal, é a ganância que faz o meu garçom comprar 3 casas que não pode pagar, sem dar nada de entrada. É a ganância que faz seus pais refinanciarem a casa de 200mil por 250. E então pegar os 50 a mais para fazer compras. Compram uma TV de plasma, celulares, computadores, um carro esportivo. Por que não uma segunda casa? Afinal sabemos que os preços dos imóveis nos EUA sempre sobem, não é? A cobiça fez o governo deste país cortar as taxas de juros para 1% depois do 11 de setembro. Para todos voltarmos a comprar. Temos uma série de nomes pomposos para trilhões de dólares de crédito. CMOs, CDOs, SIVs, ABSs. Sinceramente, acho que talvez 75 pessoas no mundo todo saibam o que eles significam. Mas eu vou dizer o que são. São ADM, Armas de Destruição em Massa. Enquanto estive preso, parece que a cobiça ficou mais gulosa e juntou-se a ela um pouco de inveja. Os especuladores levavam para casa US$ 50, US$ 100 milhões por ano. Então o Sr. Banqueiro olha em volta e pensa: ‘minha vida está muito chata’. Aí ele começa a alavancar suas participações até 40, 50 para um, com o seu dinheiro. Não o dele, o de vocês. Porque ele tem esse poder. Vocês é que deviam pegar empréstimos, não eles. E a beleza do negócio é que nem é responsável por ele. Todo mundo está engolindo a mesma história. No ano passado, sras. e srs., 40% de todo o lucro empresarial americano veio de serviços financeiros. Não da produção, nem nada remotamente ligado às necessidades do povo. A verdade é que somos parte do fracasso. Bancos, consumidores, estamos movendo o dinheiro em círculos. Pegamos um dólar, o enchemos de anabolizantes e chamamos isso de alavancagem. Eu chamo de ‘operação bancária esteróide’. Já fui considerado muito esperto para finanças. E talvez tenha ficado preso muito tempo. Mas às vezes só na cadeia é que se mantém a sanidade. Olhamos por entre as grades e perguntamos: ‘Ei! Estão todos loucos aí fora?’. É claro como água para quem presta atenção. A mãe de todos os males é a especulação. Dívida alavancada. Resultado líquido. Empréstimos a perder de vista. Sinto muito dizer isso a vocês, mas esse é um modelo de trabalho falido. Não vai dar certo. É sistêmico, maligno e global. Como um câncer. É uma doença, e temos de atacá-la. Como faremos isso? Como vamos restaurar a economia a nosso favor? Vou dizer como. São três palavras: comprem meu livro. Investimentos à moda antiga funcionam”.

Também me fez pensar que eu adoraria cursar Economia, se não tivesse que estudar matemática rs.

sábado, 4 de agosto de 2012

A nossa velha nostalgia


Por que temos essa mania de glorificar o passado? De pintar como mais alegres momentos pretéritos do que realmente foram?

Hoje acordei muito nostálgico. Lembrando de várias fases da minha vida.

É comum dizerem que os nostálgicos não estão satisfeitos com o seu presente. No meu caso, isso sempre foi mentira. Por mais feliz que eu esteja, é raro eu não olhar para trás e pensar “ah, naquele tempo eu era muito mais feliz”.

Excetuando-se períodos negros que todos passam em suas vidas, os demais sempre parecem mais coloridos do que foram mesmo. Percebo isso toda vez que paro para analisar com frieza certas “épocas de ouro” da minha vida. Não eram, nunca foram. A propósito, eu acho que essa é uma das mensagens que o Meia-Noite em Paris, do Woody Allen, nos passa: não existem épocas de ouro. E achar que existe decorre dessa característica de exaltar o passado.

Certa vez li que existe uma explicação científica para esse fenômeno: o cérebro humano lembra com mais facilidade e mais freqüência dos bons momentos. Deve ser em nome da nossa sobrevivência. Já pensou se as fases difíceis fossem as que voltassem a todo momento ao nosso imaginário? Seria desastroso.

Existem os gatilhos que disparam esse saudosismo: uma música, um filme, um livro, um comercial de TV. Ou, em casos mais raros, ver/conversar com alguém do passado, pessoas com quem havíamos perdido o contato há muito.

Outra coisa interessante que observo é que esses momentos costumam ocorrer em datas repetidas. E nem estou me referindo ao fato de que não gosto de natal ou do meu aniversário. Atualmente, por exemplo, tenho ficado triste/pensativo/nostálgico nos sábados à tarde. Invariavelmente. Durante muito tempo, o vilão foi o domingo à tarde. E neste exato momento me ocorreu a explicação: cada dia tem um significado para gente.

O domingo é o dia associado à família e à contemplação da vida, para mim. No tempo em que eu morava sozinho e tinha uma rotina muito corrida, o domingo “não cumpria a sua função”. Eu estava longe dos meus pais e vivia assoberbado de afazeres; logo, não tinha família para curtir, tampouco momentos de ócio criativo (que me são essenciais).

O sábado é o dia que eu associo ao lazer, aos amigos. Como hoje moro numa cidade estranha (eu nasci e cresci nela, mas me é estranha, sempre foi) e estou longe dos meus amigos, bate esse banzo.


  • É, esse texto ta meio sem pé nem cabeça, mas valeu o desabafo.

terça-feira, 31 de julho de 2012

Eu e Guns N´Roses



Há muito tempo venho querendo escrever um texto sobre o Guns. O que me impedia – além da preguiça – é que gosto de tratar dos assuntos com um mínimo de racionalidade, e em se tratando de Guns n´Roses isso é meio difícil para mim, já que se trata de paixão, paixão antiga, paixão adolescente. É óbvio que neutralidade não existe em se tratando de seres humanos, o que há são tentativas de imparcialidade. Mas nem essa tentativa farei.

O Guns é algo como o Corinthians: não existe meio termo. As pessoas amam ou odeiam. Até hoje não conheci alguém que dissesse: “ah, Guns é legal”, de forma indiferente. Conheci muita gente que diz: “Guns? Odeio!”, e só falta cuspir no chão.

Para começo de conversa, se eu não tivesse conhecido o Guns um dia, não gostaria de rock, quiçá de música. Gosto de dezenas de bandas, mas não teria chegado a elas se não fosse o Guns. Assim como para muitas pessoas da minha idade, o Guns foi a porta de entrada para mim.

Tudo começou quando eu tinha 15 anos. Claro que não foi essa a primeira vez que ouvi Guns, lembro-me vagamente de tocarem suas músicas na rádio quando eu tinha uns 04, 05 anos. Minha irmã tinha um DVD deles (o famoso Live in Tokyo de 1992). Um dia peguei para assistir e gostei tanto que passei umas duas semanas vendo todo dia, mais de uma vez por dia. Daí em diante foi um pulo para fazer tudo o que fã faz: procurar conhecer todos os álbuns, todas as traduções de músicas, os clips, as curiosidades, a biografia etc.

O tempo passou, a paixão arrefeceu, outras bandas surgiram na minha vida, tive outras paixonites. Mas nada será como o Guns. Jamais. Por uma razão muito simples: eu nunca mais terei 15 anos de novo. Não terei mais a leveza da idade, a irresponsabilidade, as descobertas da adolescência. E é isso que determina a intensidade da sua relação com qualquer coisa. A gente nunca se apaixonará da mesma forma que se apaixonava naquela idade.

Após essa breve introdução, vamos àquelas perguntas de praxe: qual seu álbum favorito? A formação favorita? As músicas preferidas?

Imagino que seja quase unânime a resposta à primeira pergunta: Appetite for Destruction. Tanto pela quantidade de músicas fodásticas quanto pela qualidade destas (tal qual o Paranoid, do Black Sabbath, parece mais uma coletânea, não um álbum, de tanta música boa que tem).

Minha formação favorita é quase a original, só trocando o Steven Adler pelo Matt Sorum.

E agora chega aquele ponto crítico: escolher a música predileta. Obviamente, isso é impossível. Escolhendo as 10 preferidas ainda fica difícil, mas vamos lá:

1-      Nightrain (Appetite)
2-      November Rain (Illusion 1)
3-      Estranged (Illusion 2)
4-      You Could be Mine (Illusion 2)
5-      Sweet Child O´Mine (Appetite)
6-      14 Years (Illusion 2)
7-      Chinese Democrac y (Chinese)
8-      Civil War (Illusion 2)
9-      It´s so Easy (Appetite)
10-   Used to Love Her (Lies)

E você? Qual seria o seu top 10? Que música você não perdoa não estar neste top 10?

Foi fácil escolher as 5 primeiras. Elas continuarão nesta lista daqui a 50 anos. Faço essa observação porque com música tem muito aquilo de escolher a preferência do momento, em cada época temos uma preferência diferente. Já tive paixonites por diversas músicas do Guns, se eu fosse listá-las aqui, ficaria um top 20. Logo, não estou muito convicto quanto à escolha das 5 últimas, tem umas 12 músicas concorrendo por essas 5 vagas.

Ao iniciar a lista, procurei ser ‘justo’ com os álbuns, equilibrar a quantidade de músicas de cada um na lista. Mas não dá. Por exemplo: ainda que eu adore Move to the City (que seria mais uma representante do Lies), não tem como colocá-la e deixar de fora outras de que gosto mais, como Welcome to the Jungle, Out ta get Me, Rocket Queen, Think About You, Bad Obsession, Pretty Tied Up, Get in the Ring, Locomotive, Paradise City, Mr. Browstone, Better, Catcher In The Rye. Qualquer dessas poderia ocupar os últimos 05 lugares da lista acima.

Parece contraditório eu dizer que o meu álbum preferido é o Appetite e no meu top 10 ter mais músicas dos Use Your Illusion. Mas não é. Escolho o Appetite pelo conjunto da obra. Com os Ilussions é 7 ou 70: a maioria das minhas músicas preferidas está ali. Porém, das outras eu mal lembro o nome, ao passo que no Appetite eu acho que sei até a ordem das músicas, não tem uma ruim ali.

Vocês já devem ter percebido que eu não mencionei o Spaghetti. Não é um lapso. É que não gosto mesmo. Ou, em outras palavras, para ser mais exato: eu mal o conheço. Não consigo citar 4 músicas de cabeça. Escutei-o uma única vez na vida, e quando terminou ficou um vazio, porque não teve uma música que me chamasse a atenção. Quando penso na discografia do Guns, eu, sem perceber, pulo o Spaghetti.

Para encerrar, devo falar sobre o Axl. No começo, não ia muito com a fuça dele. Tive minha fase de “Axl é um babaca”. Ele cometeu alguns erros, sem dúvida. Seu egocentrismo fez com que a banda acabasse (eu adorei o Chinese Democracy, mas aquela formação não é Guns, é uma tentativa de Guns). Mas eu aprendi a gostar dele.

Percebi isso a primeira vez que ouvi o Velvet. Pensei: “nossa, que massa! Mas ta faltando alguma coisa”. Ele realmente não é um doce de pessoa, não é cativante. Mas pergunto: Renato Russo era? Cazuza era? Eram todos pessoas difíceis de se conviver, mas ninguém em sã consciência prefere Legião sem R. R e Barão sem Cazuza. Que me perdoem os que não gostam dele, mas para mim ele era a alma daquela bagaça.

PS – Após terminar o texto, fui dar uma espiada no Spaghetti, ver se repensava algo. Acrescento, então, que New Rose é bem legal. Tem Attitude também, mas essa não é do Guns. De toda forma, vou ouvir este álbum novamente, será interessante “redescobrir” o Guns.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Me faça sonhar - Made in Brazil

Não consigo parar de ouvir. 
"que me faça sonhar, que me faça suar, com amor"
"que me faça sonhar, que me faça suar, com amooooor"



domingo, 15 de julho de 2012

Meia-Noite em Paris

     Idem ao post anterior: vi hoje o Meia-Noite em Paris, e achei formidável. Como estou com preguiça de escrever sobre, publico aqui a crítica do saudoso Daniel Piza, que faleceu no fim do ano passado, deixando-me, de certa forma, órfão.


NUNCA SE ESTÁ SOZINHO EM PARIS

O filme se abre com um solo de Sidney Bechet (Bechê, na pronúncia francesa) enquanto imagens de Paris se sucedem, diurnas e noturnas, mas Woody Allen não vai falar apenas da beleza turística da cidade luz, de seus tantos cartões-postais, ainda que sigam inexauríveis. O protagonista de Meia-Noite em Paris, Gil Pender (Owen Wilson), quer muito mais da cidade que sua noiva e seus sogros, americanos como ele, que dizem que ela serve "para visitar, não para morar", e só fazem programas banais e compras, muitas compras. Gil está cansado de escrever ou reescrever roteiros medíocres em Hollywood para ganhar dinheiro e gastá-lo em móveis de US$ 20 mil para sua casa em Malibu. Quer escrever um romance, e dos bons. Mas não tem apoio autêntico de ninguém.

Um amigo que encontram lá, um tipo "pedante Google" que acha que conhecimento é acumular informações sem qualquer relação com as experiências, diz logo no começo que essa mania de falar em "eras de ouro", de idealizar épocas como se tivessem sido perfeitamente felizes, é coisa de quem não consegue lidar com o presente. Bem, o presente de Gil não é dos mais inspiradores e, numa noite, sozinho e bêbado, um carro antigo passa e o leva para um festa. Ali vê Cole Porter tocando e cantando Let"s Do It ao piano e conhece o casal Scott e Zelda Fitzgerald; pouco depois, é apresentado a Hemingway; ainda encontra Gertrude Stein, Dalí, Djuna Barnes, Archibald McLeish, Buñuel, Matisse, Modigliani e Picasso. Idealizando ou não, quem não queria estar nesse tempo e lugar?

Nós, espectadores, rimos com o "name-dropping" de Woody e partilhamos a perplexidade de Gil, mas não é esse o único barato do filme. Gil encontra também Adriana (Marion Cottilard, presença muito mais especial que a de Carla Bruni), uma encarnação de charme e sensualidade que sua bela noiva jamais poderia igualar. Ela é amante de Picasso e depois Modigliani, o que vale uma fala deliciosa de Gil: "Você dá outro conceito à palavra groupie". Groupies, como se sabe, são aquelas fãs que transam com os ídolos só porque estes sobem ao palco e tocam dois acordes. Gil tem ainda a oportunidade de receber a opinião de Gertrude Stein sobre seu romance e de conversar com Hemingway, "Papa" (quantas pessoas na plateia sabem desse apelido?), sobre como o amor só vale a pena quando o sexo suspende nosso medo da morte.

Woody faz como ninguém essa reconstituição dos personagens. Quem já leu os textos do cineasta conhece seu dom para parodiar estilos como o de Hemingway, o qual se vê nos diálogos do filme, repletos de "and" ("e"), assertivas (como ao profetizar para Scott sobre Zelda: "Essa mulher vai te deixar louco e vai estragar seu talento") e expressões como "grace under pressure" (graça sob pressão). Não gostei tanto do Picasso mal articulado e rabugento, mas isso é detalhe. O que importa é que esses "amigos imaginários" de Gil, como diz sua noiva em tom de crítica, representam para ele uma experiência virtual que vai se refletir na realidade - e não é para isso que a arte serve? Por um momento, ele pensa se é possível gostar de duas pessoas, mas não demora muito para ver que sua noiva materialista e egoísta não o ama nem merece ser amada.

Da mesma maneira, Woody não quer saber apenas de fazer turismo por um passado glamouroso para quem se interessa por artes e mulheres. Adriana quer viver em outra era de ouro, na década de 1890, e conviver com Lautrec e Degas, jantar no Maxime"s e ir ao Moulin Rouge. Todos já pensamos nisso: em viver na Florença dos Médici, na Londres do exílio de Voltaire, no Rio dos anos 50... Eu confesso que sempre pus no topo da lista a mesma Paris dos anos 20. Mas quem acha que Woody está dizendo que não existem eras de ouro comete tolice. Decididamente, os tipos de conversa, música, dança, literatura, pintura e moda que vemos desfilar no filme, para dizer o mínimo, formam um contraste forte com nossa época frívola, dominada pela patrulha das aparências, tão sem espirituosidade e refinamento. Um dos bares que Gil visita nos anos 20 é hoje uma lavanderia, cheia de máquinas, vazia de coragens.

No final, em que Gil encontra no presente uma chance de perpetuar esse ânimo do passado (encontra um sabor dos anos 20 numa pessoa e num lugar), vemos como foram bobas em geral as resenhas sobre o filme. Woody não fez apenas mais uma "diversão inteligente", como se fosse um bom seriado de TV ou outro de seus filmes recentes. É divertido, claro, mas está a serviço da inteligência, que não é adjetivo. Pode ser lido como um filme sobre a Paris dos anos 20; sobre a relação americana com a cultura europeia (e os americanos atuais se saem mal no filme: sempre se queixando, até da comida); sobre a ousadia de realizar o sonho de ir a fundo no trabalho e no amor; sobre uma cidade ou as cidades especiais, que são mais ricas se têm mais "fantasmas" inspiradores. Sim, parece dizer Woody Allen depois dessa série de filmes rodados na Europa, é preciso lidar com o presente, mas "o passado nem sequer passou", na citação que faz de Faulkner, e há muitas maneiras de lidar com o presente. Au point.

Retirado de http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,nunca-se-esta-sozinho-em-paris,737017,0.htm

Jogos Vorazes

     Há alguns dias terminei a leitura da trilogia Jogos Vorazes, e achei excelente. Como estou com uma baita preguiça de escrever sobre, publico aqui um texto que achei na internet.



Jogos Vorazes (Editora Rocco) é o meu livro predileto. Ponto. Acho que esse é um bom começo para essa resenha. Você sabe que um livro é especial quando você devora 400 páginas em menos de um dia e meio, quando – meses depois – você ainda pensa diariamente na história, ou quando você faz questão de relê-lo no instante em que ele é lançado no Brasil (eu já havia lido anteriormente a versão americana). Quando decidi conhecer o livro, depois de ouvir elogios dele pela internet, mal sabia o que estava prestes a encarar. E sou muito grato por isso. Assim, pouparei ao máximo os detalhes da trama nessa resenha. Você vai ter que, simplesmente, confiar em mim e descobrir sozinho o que essa obra tem para contar.

Jogos Vorazes se passa num futuro pós-apocalítico, onde os Estados Unidos já não existem mais. Em seu lugar, ergueu-se Panem, uma nação governada por uma tirânica Capital, circundada por doze paupérrimos distritos, de onde tiram seus principais recursos. Em decorrência de eventos passados, quando os distritos tentaram se rebelar e assumir o controle, a Capital governa com mão de ferro e, para mostrar que os distritos estão à sua mercê, promovem anualmente um reality show chamado Jogos Vorazes. Trata-se de uma disputa na qual uma garota e um garoto – de doze a dezoito anos – de cada distrito são forçados em uma enorme arena a céu aberto. Lá, são obrigados a lutar, matando uns aos outros até que somente um sobreviva. Enquanto isso, a população de todo o país acompanha cada acontecimento pela tela de suas televisões. Nos distritos, são forçados a assistir. Na Capital, o fazem por puro divertimento.

Neste terrível contexto, vive Katniss Everdeen, uma jovem do Distrito 12, o mais miserável de todos. Ela sempre esteve acostumada com os desafios de sobreviver, especialmente após a morte de seu pai, que a forçou a assumir a responsabilidade de alimentar sua família. Ainda assim, quando sua irmã mais nova é sorteada para os Jogos Vorazes, ela se voluntaria em seu lugar e nada poderia prepará-la para o pesadelo que se seguiria.

Rick Riordan, autor da série Percy Jackson e os Olimpianos, declarou que Jogos Vorazes é o livro de ação que mais se aproxima da perfeição. Ele não podia estar mais correto. Não há nada – nem sequer um detalhe – que me incomodou, nada que eu faria diferente. A narrativa – em primeira pessoa –, o ritmo, a ação, a descrição – tudo é, magistralmente, impecável.

Uma vez que se pega o livro nas mãos, não há como largá-lo. Como se a temática da obra já não fosse intrigante por si só, a história criada por Suzanne Collins é arrebatadora. Cativante, emocionante e imprevisível – elogios não faltam. Quando se menos espera – BOOM –, todo o fluxo da história se altera. Como escritor, essa é a obra que eu gostaria de ter escrito.

É impossível negar: Jogos Vorazes é um livro violento. Afinal, são crianças sendo forçadas a matar umas às outras. Não há como inserir flores e arco-íris nesse contexto. Todavia, tudo está presente na medida certa. A brutalidade não é gratuita, nem exaltada, mas também não é censurada ou eufemizada. A autora não se rende ao sangue para chamar atenção, porém é ousada em transmitir tudo com um realismo chocante.

Engana-se, contudo, quem acha que ação é o único combustível da trama. A emoção se faz presente em igual proporção. Não podemos nos esquecer também do romance. Romance? Há espaço para o amor durante uma luta sangrenta até a morte? Pode ter certeza de que sim.

Acabo por aqui esta resenha, antes que estrague o enredo revelando mais de seus trunfos. Para você, leitor, reitero: vá agora, correndo, adquirir seu exemplar. Esteja avisado, porém, que uma vez dentro da arena, ninguém nunca mais é o mesmo.



Autoria de F. Pierantoni, retirado de http://www.skoob.com.br/livro/resenhas/106468/mais-gostaram/