terça-feira, 29 de maio de 2012

Relação Mídia-Cachoeira: “A Veja deve explicações ao país”, diz presidente da Fenaj

A CPI realizada pelo Congresso Nacional que tenta investigar a influência do bicheiro Carlinhos Cachoeira sobre o poder público acabou suscitando um debate tão inesperado quanto necessário no país: a relação da mídia com as esferas de poder, sejam elas políticas ou econômicas.


A Polícia Federal identificou cerca de 200 conversas telefônicas entre o diretor da sucursal da revista Veja em Brasília, Policarpo Júnior, e o contraventor. A divulgação dessas escutas mostra que Cachoeira pautava a publicação da editora Abril, que se deixava levar pelos interesses políticos de um empresário fortemente ligado ao senador Demóstenes Torres (ex-DEM).
Para o presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Celso Schröder, a revista precisa explicar o que guiou sua prática jornalística nesse episódio. “A Veja tem que dar explicações ao Brasil. É preciso explicar como ela exerce a atividade jornalística com essas veleidades, com descompromisso e irresponsabilidade em relação a princípios éticos e técnicos consagrados pelo jornalismo”, entende.

Sul21 – O que a CPI do Cachoeira pode nos dizer sobre a mídia brasileira?
A CPI está nos mostrando que a mídia é uma instituição como qualquer outra e precisa estar submetida a princípios públicos, na medida em que a matéria-prima do seu trabalho é pública: a informação. Quanto menos pública essa instituição for e mais submetida aos interesses privados dos seus gestores ela estiver, mais comprometida ficará a natureza do jornalismo. Como qualquer instituição, a mídia não está acima do bem e do mal, dos preceitos republicanos do Estado de Direito e do interesse público. Do ponto de vista político, a Veja confundiu o público com o privado. Do ponto de vista jornalístico, comete um pecado inaceitável: estabelecer uma relação promíscua entre o jornalista e a fonte. Não é só um repórter, mas é a organização, a chefia da empresa, que conduz e encaminha uma atividade tecnicamente reprovável e eticamente inaceitável. Todo jornalista sabe, desde o primeiro semestre da faculdade, que a fonte é um elemento constituidor da notícia na medida em que ela for tratada como fonte. A fonte tem interesses e, para que eles não contaminem a natureza da informação, precisam ser filtrados pelo mediador, que é o jornalista. A fonte, ao mesmo tempo em que dá credibilidade e constitui elemento de pluralidade na matéria, por outro lado, se não for mediada e relativizada pelo jornalista, pode contaminar o conteúdo.

Em que pontos a relação entre Policarpo Júnior e Cachoeira extrapolaram uma relação saudável entre repórter e fonte?
Ele não tratou o Cachoeira como fonte. O problema é um jornalista ou uma empresa jornalística atribuir a alguém uma dimensão de fonte única, negociando com ela o conteúdo e a dimensão da matéria e, principalmente, conduzindo a Veja para uma atuação de partido político. Esse é um pecado que a Veja vem cometendo há algum tempo. A oposição no Brasil é muito frágil. Por não existir uma oposição forte, a imprensa assume esse papel, o que é uma distorção absoluta. A imprensa não tem que assumir essa função, a sociedade não atribui a ela uma dimensão político-partidária, como a Veja se propõe. A Veja acaba de nos produzir um dos piores momentos do jornalismo. Quando houve o episódio da tentativa de invasão do apartamento do ex-ministro José Dirceu (PT) por um repórter da Veja, eu escrevi um artigo dizendo que, assim como Watergate tinha sido o grande momento do jornalismo no mundo, a atuação da Veja no quarto de Dirceu foi um anti-Watergate. Mal sabia eu que teríamos um momento ainda pior. Não foi a ação individual de um repórter sem capacidade de avaliação. Foi uma ação premeditada e sistêmica de uma empresa de comunicação, de um chefe que conduzia seu repórter para uma ação imoral, tangenciando perigosamente a ilegalidade.

O mesmo pode ser dito para o episódio recente entre Policarpo Júnior e Cachoeira?
Neste momento, isso se consolida. É uma revista que coloca em jogo a matéria-prima básica da sua existência: a credibilidade. Parece-me um suicídio, inclusive do ponto de vista de um negócio jornalístico. A não ser que a Veja esteja contando com um outro tipo de financiamento, ou já esteja sendo subsidiada por outro mecanismo que não seja decorrente da credibilidade e da inserção no público. Não temos dados concretos sobre isso, mas tudo leva a crer que, nesse momento, o financiamento da Veja esteja se dando por outro caminho. O comprometimento e o alinhamento inescrupuloso da revista a uma determinada visão de mundo conduz à ideia de que a Veja possa ter aberto mão de ser um veículo de comunicação para ser um instrumento político com financiamento deste campo.

Mas a revista já passou por períodos em que era mais comprometida com o jornalismo. Como ocorreu essa mudança?
Não é de agora que a Veja vem dando indícios de que abre mão de um papel de referência jornalística. A Veja foi fundamental para a redemocratização do país, foi referência para jornalistas de várias gerações e teve em sua direção homens como Mino Carta e Alberto Dines. Depois de um certo tempo, a revista começa a alinhar-se a um determinado grupo social brasileiro. É claro que os editores da revista têm opiniões e cumprem um papel conservador no país. Tudo bem que isso aconteça nas dimensões editoriais. Agora, que se reserve ao jornalismo informativo um espaço de discussão com contrapontos. Princípios elementares do jornalismo foram sendo abandonados e essa revista, que foi importante para a democracia e para o jornalismo, passa a ser um exemplo ruim que precisa ser enfrentado.

Como o senhor vê a possibilidade de Policarpo Júnior ser convocado para depor na CPI?
Tenho visto declarações de alguns políticos, como da senadora Ana Amélia Lemos (PP-RS), que diz que o envolvimento do Policarpo nisso representa um ataque à imprensa. Os jornalistas não estão acima da lei e não podem estar acima dos princípios republicanos. Se ele for convocado pela CPI, tem o direito de não ir. Se ele for, tem o direito de exercer a prerrogativa do sigilo de fonte. Mas a convocação não representa uma ameaça. A Veja tem que dar explicações ao Brasil. É preciso explicar como ela exerce a atividade jornalística com essas veleidades, com descompromisso e irresponsabilidade em relação a princípios éticos e técnicos consagrados pelo jornalismo. Questionar isso é fundamental. Os jornalistas e a academia têm obrigação de fazer esse questionamento.

Sul21 – Nesse sentido, não seria válido também convocar o presidente do Grupo Abril, Roberto Civita?
Schroder – Parece que seria deslocar o problema. Na CPI, a Veja é um dos pontos. O problema é a corrupção entre o Cachoeira e o Parlamento brasileiro. Um depoimento do Civita geraria um debate que desviaria os trabalhos da CPI. Não há dúvida de que a Veja praticou um mal jornalismo e deve prestar contas. A CPI tem gravações de integrantes da revista com o bicheiro. Que eles sejam convocados, então. Não é pouca coisa trazer o chefe da sucursal da Veja em Brasília para depor.

As críticas à Veja costumam ser rebatidas com argumentos que valorizam o trabalho supostamente investigativo feito pela revista, com diversas denúncias de corrupção. Entretanto, as gravações entre Policarpo e Cachoeira revelam como funcionava a engenharia que movia algumas dessas denúncias.
Há uma certa sensação de que estamos vivendo um momento de corrupção absoluta no país. E isso está longe de ser verdade. Basta olhar a história e ver que agora temos instituições democráticas funcionando. A imprensa cumpre um papel democrático e fiscalizador importante com a denúncia. O problema é que alguns setores, ao fazerem denúncias, atribuem um papel absoluto à ideia da corrupção. No caso da Veja, o pior de tudo é que a própria revista estava envolvida. Não é só um mau jornalismo sendo praticado. Há indícios perigosos de uma locupletação – que não precisa ser necessariamente financeira. Pode ser uma troca de favores, onde o que a Veja ganhou foi a constituição de argumentos para uma atuação política, não jornalística. Como se fosse o partido político que a oposição não consegue ser. Se a imprensa se propõe a esse tipo de coisa, volta a um patamar de atuação do século XVIII. Se é para ser assim, que a revista mude de nome e assuma o alinhamento a determinado partido. Agora, ao se apresentar como um espaço informativo, a Veja precisa refletir a complexidade do espaço político brasileiro. Se ela não faz isso, está comprometendo o jornalismo e tangenciando uma possibilidade de ilegalidade que, se houver, precisa ser esclarecida. A Fenaj não vai proteger jornalistas criminosos.

A revelação desse modus-operandi da Veja está gerando uma discussão quase inédita no país: a mídia está debatendo a mídia. A revista Carta Capital tem dedicado diversas capas ao tema e a Record já fez uma reportagem sobre o assunto. É um fenômeno comum em outros países, mas até então não ocorria no Brasil.
Nos anos 1980, quando a Fenaj propôs uma linha para a democratização da comunicação, partimos da compreensão de que a democratização do país não havia conseguido chegar à mídia. O sistema midiático brasileiro, ao contrário de todas as outras instituições, não havia sido democratizado. Temos cinco artigos da Constituição nessa área que não estão regulamentados. Durante 30 anos tivemos diversas iniciativas de tentar construir esse debate. A lógica da regulamentação existe em todos os países do mundo. Mas, no Brasil, isso enfrenta resistências de uma mídia poderosa, que fez os dois primeiros presidentes da República após a democratização. Sarney e Collor são dois políticos que saíram dos quadros da Rede Globo. Na presidência do Congresso tivemos outros afilhados da Rede Globo, como Antonio Carlos Magalhães, que também foi ministro das Comunicações. A mídia não só está concentrada, no sentido de ter monopólios, como está desprovida de qualquer controle público. Está absolutamente entregue à ideia de que a liberdade de expressão é a liberdade de expressão dos donos da mídia. Enquanto que o preceito constitucional diz que a liberdade de expressão é do povo, e o papel da mídia é assegurar isso.

Quanto se conseguiu avançar nesse debate desde então?
Estamos há 30 anos pautando esse debate até chegarmos a Confecom (Conferência Nacional de Comunicação, realizada em dezembro de 2009). A Fenaj consegue constituir a ideia de que esse debate precisa ser público, já que ele é omitido pela mídia, que atribui à essa discussão uma tentativa de censura. A Confecom, no início, teve a anuência das empresas. Eu fui junto com os representantes da RBS e da Globo aos ministros Helio Costa (Comunicações), Tarso Genro (Justiça) e Luiz Dulci (Secretaria-Geral da Presidência) propor a conferência. As empresas compreendiam que, naquele momento, a telefonia estava chegando e ameaçava um modelo de negócios. Mas, durante a Confecom, a Rede Globo e todos os seus aliados se retiraram, tentando sabotar mais uma vez o debate. O espírito conservador está no DNA da Rede Globo. Ela acostumou-se à ideia de que para o seu negócio não deve existir nenhuma regra. Acostumou-se a impor seus interesses ao país e, portanto, é ontológicamente contra qualquer regra. Naquele momento em que a Globo se retirou da Confecom ficou claro que não é possível contar com esses empresários para qualquer tipo de tentativa de atribuir à comunicação no Brasil uma dimensão pública, humana e nacional, regida por princípios culturais, democráticos e educacionais, não simplesmente pelo lucro fácil e rápido.

O editorial do jornal O Globo defendendo a revista Veja é um indício de que há um corporativismo muito grande entre os donos da mídia tradicional?
O princípio que os une é aquele verbalizado pela Sociedade Interamericana de Imprensa: Lei melhor é lei nenhuma. As empresas alinhadas à ideia de que não podem estar submetidas à lei protegem-se. Abrigadas no manto de uma liberdade de expressão apropriada por elas, protegem seus interesses e seus negócios, atuando de uma maneira corporativa e antipública. O jornalismo é fruto de uma atividade profissional, não é fruto de um negócio. Jornalismo não é venda de anúncios. Jornalismo é, essencialmente, o resultado do trabalho dos jornalistas. Portanto, a obrigação dos jornalistas é denunciar sempre que o jornalismo for maculado, como ocorreu com a Veja. Seria, também, uma obrigação das empresas jornalísticas, na medida em que elas não estejam envolvidas com esse tipo de prática. Ao tornarem-se cúmplice e acobertarem esse tipo de prática, as empresas aliam-se a elas. Essas empresas disputam o mercado, mas protegem-se no que consideram essencial, no sentido de inviabilizar a ideia de que exercem uma atividade submetida aos interesses públicos, como qualquer outra.

Disponível em http://www.pt.org.br/noticias/view/relacaeo_midia_cachoeira_a_veja_deve_explicacoes_ao_pais_diz_presidente_da

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Louco por Elas

     "Eu era neném, não tinha talco, mamãe passou açúcar em mim...". Ah, como eu gosto dessa série Louco por Elas, da Globo.

Por que escolhemos relacionamentos complicados?

     Muito bom o texto que segue. É incrível como as pessoas não percebem o óbvio. É incrível como muitos gostam de "sofrer por amor", deixando de lado o amor próprio. Arnaldo Jabor diz que as mulheres gostam dos cafajestes porque sofrer por eles justifica suas existências. Bom, é uma generalização e, como tal, falha, até porque também existem muitos homens que adoram sofrer por mulheres cafajestes.

     POR QUE ESCOLHEMOS RELACIONAMENTOS COMPLICADOS?


Eu sempre falo aqui sobre como ter relacionamentos menos complicados, mais felizes e sem dramas desnecessários, mas recebi no fim de semana a seguinte mensagem de um amigo querido:
"Pauta pra tua coluna: as pessoas não estão prontas para relações descomplicadas. Elas gostam do drama, da cobrança e do ciumes"
E então passei as horas seguintes pensando em quantas pessoas já vi reclamando de namoros complicados, casamentos que parecem nunca dar certo e ainda assim insistindo naquilo, como se a máxima "tem que ser difícil pra valer a pena" fosse uma verdade.
Ser difícil não quer dizer ser infeliz. Ser difícil é passar o dia a dia, a rotina, as coisas pequenas que deixam nossa vida mais complicada e cansativa. A dificuldade vale a pena se você tem um amor imenso, alguém que te diga que tudo vai dar certo, te ajude a encontrar uma saída e não arrume mais problemas para sua cabeça.
Outra coisa que dizem por aí e que eu nunca entendi muito bem é sobre a tal necessidade de sofrer para encontrar um amor verdadeiro. Gente, isso não existe. Amor verdadeiro vem com ou sem sofrimento e já que ele pode vir sem, por que vamos dar chance pra algo ruim entrar na nossa vida?
Se manter em um relacionamento doentio só porque se acredita que depois disso irá encontrar o amor verdadeiro é comprovar que ajuda médica é necessária!
E aí falando sobre o drama, a cobrança e o ciume, citados pelo meu amigo, é a mesma coisa em qualquer tipo de relacionamento. A pessoa que é assim com um namorado vai ser assim com os pais, os amigos, o chefe...
Você não deveria precisar que ninguém que cobre para que você faça o que acredita ser certo. Ou você só faz as coisas para fugir da cobrança, sem nem pensar a respeito?
O que a maior parte das pessoas precisa é entender que merece ser feliz. Felicidade não é uma licença que se ganha depois de passar por muitas coisas ruins. Felicidade se constrói, é cuidada todo dia, trabalhada, não vem de graça, mas vai embora num piscar de olhos.
Se dê a chance de viver sem cobrança — nem sua, nem da pessoa escolhida para dividir essa etapa da vida -, entenda que ciume não é positivo e tente controlar o monstrinho que insiste em dar shows vergonhosos e, acima de tudo, entenda que drama é muito bonito no cinema, mas que na vida real normalmente não acaba com um final feliz.
Tire da sua vida tudo aquilo que atrapalha, tudo o que impede seu crescimento e tente perceber a felicidade de um relacionamento descomplicado. Faça um teste: durante um mês não se permita falar NADA — absolutamente nada — sobre ciume da pessoa amada. Nem para ela, nem para os amigos. A cada pensamento sobre ciume você vai procurar algo útil para fazer.
Vai ser difícil, mas ao fim do mês — se você conseguir passar por esse desafio — é hora de fazer a mesma coisa com cobranças. Você queria mais romance? Seja romântica. Você queria mais carinho? Seja mais carinhosa.
Ao fim do segundo mês você estará pronta para acabar com o drama. E aí é parar de choramingar por qualquer coisa e levar o diálogo racional e adulto para sua vida. Não fale com seu namorado como uma criança birrenta, mas sim como você fala no trabalho, decidida e com argumentos.
Depois disso você vai notar o que é um relacionamento sem complicação, sem coisas inúteis e ver que a felicidade sempre esteve ali, você que a escondia no meio do caos.
CAROL PATROCÍNIO

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Texto que li no Facebook

"...Você começa a se sentir inseguro e pensar sobre onde você vai estar daqui a um ano ou dois, mas de repente se sente inseguro porque você mal sabe onde está agora. Você começa a perceber que as pessoas são egoístas e que, talvez,aqueles amigos que você pensou que eram tão próximos não são exatamente as melhores pessoas que você encontrou em seu caminho, e pessoas que você perdeu o contato eram algumas das mais importantes. O que você não consegue perceber é que eles percebem isso também, e não estão sendo frios, grosseiros, ou falsos, mas estão tão confusos quanto você..."

domingo, 25 de março de 2012

Stieg Larsson - Os Homens que não Amavam as Mulheres


“Acontecia todos os anos, quase como um ritual. O homem que recebia a flor festejava naquele dia seus oitenta e dois anos. Ele abriu o envelope e retirou o papel de presente do embrulho. Depois pegou o telefone e digitou o número de um ex-inspetor de polícia que desde sua aposentadoria instalara-se na Dalecarlia, perto do lago Siljan”.

Assim começa a intrigante história de “Os Homens que não Amavam as Mulheres” (cujo título original é “Os Homens que Odiavam as Mulheres”), que narra um enigma que se arrasta há décadas.

O homem mencionado é Henrik Vanger, octogenário que há anos convive com um mistério: em 1966, sua sobrinha, Harriet Vanger, então com 16 anos, desapareceu sem deixar vestígios. A investigação da polícia durou vários anos, sem sucesso. Após o fim do inquérito policial, Henrik passou a investigar por conta própria, incansavelmente. Sem sucesso, até os dias de hoje. Com um detalhe tétrico: Harriet, antes de desaparecer, enviava a Henrik, em todo aniversário seu (de Henrik), uma flor. Mesmo após desaparecer, as flores continuam chegando, ano após ano. 

Somos então apresentados a Mikael Blomkvist, um jornalista que não vive seus melhores dias. Acaba de ser condenado num processo judicial por difamação, e será obrigado a pagar uma vultosa indenização à vítima, além de cumprir uma pena de 3 meses de prisão. Ao que tudo indica, sua carreira está encerrada.

Henrik Vanger, raposa do mundo dos negócios, sabendo da situação de Mikael, faz-lhe uma proposta inusitada: pagará ao jornalista gordos honorários para que este volte a investigar o desaparecimento de Harriet. 

Mikael, sem muitas opções, se muda para a cidade onde tudo aconteceu em 1966, e passa a revolver todo o passado da família Vanger.

O mistério é muito interessante. Parece insolúvel, com a agravante de que não se dispõem de muitos meios para se investigar o que ocorreu há 40 anos. Não há sequer certeza se houve mesmo um homicídio.

Mas, para mim, o grande mérito de Stieg Larsson nem é criar uma história que tem tudo para ser fantástica (acaba não sendo).  É a construção de seus personagens. Os dois protagonistas, Mikael Blomkvist e Lisbeth Salander, são cativantes. Ele é um jornalista bem sucedido (mesmo com a condenação judicial), dono da revista Millenium, simpático, inteligente, charmoso, faz sucesso com as mulheres (é uma das coisas de que não gostei no filme sueco, o Mikael lá é um sujeito sem sal).

Já Lisbeth é o oposto de Mikael. É introvertida, taciturna, tida como doente mental pela maioria, por vezes agressiva. “Uma jovem pálida, de uma magreza anoréxica, com cabelos quase raspados e piercings no nariz e nas sobrancelhas. Tinha uma tatuagem de uma vespa no pescoço e uma faixa tatuada ao redor do bíceps do braço esquerdo”. Tem também uma tatuagem de dragão que ocupa suas costas inteiras (nos EUA a obra foi traduzida como “A Garota da Tatuagem de Dragão”, o que revoltou, com toda a razão, a viúva de Larsson). Mas não se enganem: Lisbeth é a melhor detetive da empresa em que trabalha. Mais para frente descobriremos que é a melhor hacker da Suécia.

É inevitável a pergunta: como alguém, com essa descrição, pode ser cativante? A personalidade forte, meus caros. Lisbeth Salander não leva desaforo para casa. Ela teria tudo para ser uma mulher frágil: é interditada pela Justiça (de modo que não pode gerir, sozinha, seu patrimônio), não tem família nem amigos, abandonou a escola e o porte físico é o de uma menina: um metro e meio e 40kg. Mas não é, muito pelo contrário. É forte, decidida, inteligente, sarcástica e, mais importante, não se cala diante das violências machistas a que as mulheres são sistematicamente submetidas. Pretendo falar um pouco mais sobre este ponto em outro post.

Aqui me lembro de uma antiga discussão literária: muitos sustentam que romances policiais seriam um gênero menor, por terem histórias que só se preocupariam em descobrir quem é o assassino. Não penso assim. Concordo com Luis Henrique Pellanda: literatura, ainda que sofisticada, é diversão. Creio que não se pode falar em GÊNEROS maiores e menores. Há LIVROS maiores e menores. Mas isso é assunto pra outro post.

A trilogia Millenium é uma obra feminista, o que já derruba o argumento de que seria apenas mais uma história que se preocupa em solucionar um mistério. O título de seu vol. 1 não é por acaso: quem ler/assistir entenderá por que se chama Os Homens que não Amavam as Mulheres (o título no Brasil ameniza a idéia do autor, pois ‘não amar’ é diferente de ‘odiar’, e a história a todo momento fala da misoginia).

Os capítulos do livro são abertos com dados estatísticos: cap 1-Na Suécia, 18% das mulheres foram ameaçadas por um homem pelo menos uma vez na vida; 2-Na Suécia, 46% das mulheres sofreram violência de um homem; 3-Na Suécia, 13% das mulheres foram vítimas de violências sexuais cometidas fora de uma relação sexual; 4-Na Suécia, 92% das mulheres que sofreram violências sexuais após agressão não apresentaram queixa à polícia. E isso que estamos falando da Suécia, país desenvolvido (logo, com menores índices de violência, de qualquer tipo) e, mais importante, dos que tem maior igualdade de gênero no mundo.

Mikael Blomkvist me parece claramente um alter ego de Stieg Larsson (que escreveu um livro sobre a extrema direita sueca). Entre outras, o personagem é feminista e de esquerda. Destaco duas de suas falas:

“-Eu nunca soube de capitalistas propensos à caridade”. (pág. 29).

“- Veja, não podemos misturar essas duas coisas: a economia sueca e o mercado da Bolsa sueca. A economia sueca é a soma de todas as mercadorias e de todos os serviços produzidos neste país diariamente. São os telefones da Ericsson, os veículos da Volvo, os frangos da Scan e os transportes marítimos de Kiruna a Skovde. Essa é a economia sueca, e hoje ela continua tão forte ou tão fraca quanto uma semana atrás.

Fez uma pausa retórica e bebeu um gole d´água.

- A Bolsa é algo bem diferente. Nela não há economia, nenhuma produção de mercadorias ou de serviços. Há somente fantasias nas quais, de uma hora para outra, decide-se que essa ou aquela empresa vale alguns milhões a mais ou a menos. Isso não tem nada a ver com a realidade nem com a economia sueca.

- Quer dizer então que não tem a menor importância que a Bolsa esteja em plena queda livre?

- Isso mesmo, não tem a menor importância. Significa apenas que os grandes especuladores estão transferindo suas aplicações financeiras em empresas suecas para empresas alemãs. Se comportam como as hienas das finanças que um repórter um pouco mais corajoso deveria saber identificar e levar ao pelourinho como traidores da pátria. São eles que, de forma sistemática e deliberada, minam a economia sueca para satisfazer os interesses de seus clientes”. (págs 509/510)

Outra parte digna de nota da história diz respeito aos bastidores da revista Millenium. Mostra como é o cotidiano de um veículo da imprensa, como o negócio é gerido e, o mais importante, levanta discussões muito interessantes sobre o papel da imprensa na sociedade (o trecho que acabei de destacar fala da falta de coragem dos jornalistas econômicos). Quem fez/faz Jornalismo terá aqui um prato cheio.

Todavia, nem tudo são flores.

Stieg Larsson não escreve bem – ainda mais se comparado à J.K. Rowling (até uns tempos atrás eu andava lendo Harry Potter, fiquei mal acostumado), que escreve muitíssimo bem. É difícil conceituar o que seria escrever bem, mas você sabe quando está diante de um texto que não é uma Brastemp. É emblemática, por exemplo, a passagem em que Mikael Blowkvist está sendo torturado. Teria tudo para dar arrepios, medo, tensão, desespero (rs), mas não dá. A meu ver, porque mal narrada.

E o ritmo deixa a desejar. O livro é muito parado. Não que isso, por si só, seja um defeito. O Mundo de Sofia, por exemplo, é um livro parado, mas excelente, entre outras, porque reflexivo. Existem algumas cenas de ação, mas são exceções. A história, na maior parte, é uma pasmaceira só. 

É o que faz Os Homens que não Amavam as Mulheres ser o pior da trilogia. E, mesmo assim, bom. Leitura recomendada.