terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Da relação direta entre ter de limpar seu banheiro você mesmo e poder abrir sem medo um Mac Book no ônibus

     Retirado de http://blog.daniduc.net/2009/09/14/da-relacao-direta-entre-ter-de-limpar-seu-banheiro-voce-mesmo-e-poder-abrir-sem-medo-um-mac-book-no-onibus/

Da relação direta entre ter de limpar seu banheiro você mesmo e poder abrir sem medo um Mac Book no ônibus

A sociedade holandesa tem dois pilares muito claros: liberdade de expressão e igualdade. Claro, quando a teoria entra em prática, vários problemas acontecem, e há censura, e há desigualdade, em alguma medida, mas esses ideais servem como norte na bússola social holandesa.
Um porteiro aqui na Holanda não se acha inferior a um gerente. Um instalador de cortinas tem tanto valor quanto um professor doutor. Todos trabalham, levam suas vidas, e uma profissão é tão digna quanto outra. Fora do expediente, nada impede de sentarem-se todos no mesmo bar e tomarem suas Heinekens juntos. Ninguém olha pra baixo e ninguém olha por cima. A profissão não define o valor da pessoa – trabalho honesto e duro é trabalho honesto e duro, seja cavando fossas na rua, seja digitando numa planilha em um escritório com ar condicionado. Um precisa do outro e todos dependem de todos. Claro que profissões mais especializadas pagam mais. A questão não é essa. A questão é “você ganhar mais porque tem uma profissão especializada não te torna melhor que ninguém”.
Profissões especializadas pagam mais, mas não muito mais. Igualdade social significa menor distância social: todos se encontram no meio. Não há muito baixo, mas também não há muito alto. Um lixeiro não ganha muito menos do que um analista de sistemas. O salário mínimo é de 1300 euros/mês. Um bom salário de profissão especializada, é uns 3500, 4000 euros/mês. E ganhar mais do que alguém não torna o alguém teu subalterno: o porteiro não toma ordens de você só porque você é gerente de RH. Aliás, ordens são muito mal vistas. Chegar dando ordens abreviará seu comando. Todos ali estão em um time, do qual você faz parte tanto quanto os outros (mesmo que seu trabalho dentro do time seja de tomar decisões).
Esses conceitos são basicamente inversos aos conceitos da sociedade brasileira, fundada na profunda desigualdade. Entre brasileiros que aqui vêm para trabalhar e morar é comum – há exceções -  estranharem serem olhados no nível dos olhos por todos – chefe não te olha de cima, o garçom não te olha de baixo. Quando dão ordens ou ignoram socialmente quem tem profissão menos especializadas do que a sua, ficam confusos ao encontrar de volta hostilidade em vez de subserviência. Ficam ainda mais confusos quando o chefe não dá ordens – o que fazer, agora?
Os salários pagos para profissão especializada no Brasil conseguem tranquilamente contratar ao menos uma faxineira diarista, quando não uma empregada full time. Os salários pagos à mesma profissão aqui não são suficientes pra esse luxo, e é preciso limpar o banheiro sem ajuda – e mesmo que pague (bem mais do que pagaria no Brasil a) um ajudante, ele não ficará o dia todo a te seguir limpando cada poerinha sua, servindo cafézinho. Eles vêm, dão uma ajeitada e vão-se a cuidar de suas vidas fora do trabalho, tanto quanto você. De repente, a ficha do que realmente significa igualdade cai: todos se encontram no meio, e pra quem estava no Brasil na parte de cima, encontrar-se no meio quer dizer descer de um pedestal que julgavam direito inquestionável (seja porque “estudaram mais” ou “meu pai trabalhou duro e saiu do nada” ou qualquer outra justificativa pra desigualdade).
Porém, a igualdade social holandesa tem um outro efeito que é muito atraente pra quem vem da sociedade profundamente desigual do Brasil: a relativa segurança. É inquestionável que a sociedade holandesa é menos violenta do que a brasileira. Claro que aqui há violência – pessoas são assassinadas, há roubos. Estou fazendo uma comparação, e menos violenta não quer dizer “não violenta”.
O curioso é que aqueles brasileiros que queixam-se amargamente de limpar o próprio banheiro, elogiam incansavelmente a possibilidade de andar à noite sem medo pelas ruas, sem enxergar a relação entre as duas coisas. Violência social não é fruto de pobreza. Violência social é fruto de desigualdade social. A sociedade holandesa é relativamente pacífica não porque é rica, não porque é “primeiro mundo”, não porque os holandeses tenham alguma superioridade moral, cultural ou genética sobre os brasileiros, mas porque a sociedade deles tem pouca desigualdade. Há uma relação direta entre a classe média holandesa limpar seu próprio banheiro e poder abrir um Mac Book de 1400 euros no ônibus sem medo.
Eu, pessoalmente, acho excelente os dois efeitos. Primeiro porque acredito firmemente que a profissão de alguém não têm qualquer relação com o valor pessoal. O fato de ter “estudado mais”, ter doutorado, ou gerenciar uma equipe não te torna pessoalmente melhor que ninguém, sinto muito. Não enxergo a superioridade moral de um trabalho honesto sobre outro, não importa qual seja. Por trabalho honesto não quero dizer “dentro da lei” -  não considero honesto matar, roubar, espalhar veneno, explorar ingenuidade alheia, espalhar ódio e mentira, não me importa se seja legalizado ou não. O quanto você estudou pode te dar direito a um salário maior – mas não te torna superior a quem não tenha estudado (por opção, ou por falta dela). Quem seu paí é ou foi não quer dizer nada sobre quem você é. E nada, meu amigo, nada te dá o direito de ser cuzão. Um doutor que é arrogante e desonesto tem menos valor do que qualquer garçom que trata direito as pessoas e não trapaceia ninguém. Profissão não tem relação com valor pessoal.
Não gosto mais do que qualquer um de limpar banheiro. Ninguém gosta – nem as faxineiras no Brasil, obviamente. Também não gosto de ir ao médico fazer exames. Mas é parte da vida, e um preço que pago pela saúde. Limpar o banheiro é um preço a pagar pela saúde social. E um preço que acho bastante barato, na verdade.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

O machismo da novela Mulheres de Areia

     Navegando pelo blog da Lola, encontrei este texto, escrito por uma de suas leitoras e que também tem um blog, o http://piordonadecasa.blogspot.com.br. Tive a mesma sensação da autora ao rever alguns capítulos da novela Mulheres de Areia: como o machismo podia ser tão explícito? E que bom que nossa sociedade avançou nesse sentido (pouca coisa, mas avançou). Sobre as gêmeas Ruth e Raquel, pergunto: que homem se interessaria pela Ruth? Mil vezes a Raquel! Tá bom, ela não precisava ser tão mau quanto um pica-pau (a gente erra a concordância mas não perde o trocadilho), mas sex appeal é bom e eu gosto. Enfim, a maldade da Raquel era só mais um dos muitos machismos da novela. Fiquem com o ótimo texto:




...a Globo reprisou até março a novela Mulheres de Areia, que foi exibida originalmente em 1993 (o remake; na verdade a novela original é de 1973). Assisti à versão de 93, quando eu tinha 13 anos, e assisti novamente este ano. São 20 anos de diferença entre o remake e a reexibição, e há tanta diferença de comportamento, Lola! Penso que se eu tivesse assistido a versão de 73 poderia escrever uma tese sobre o comportamento socialmente aceito em se tratando de gênero, mas por hora vamos nos ater ao básico.
O resumo da novela: duas filhas de pescadores, gêmeas de personalidades opostas, se envolvem com um mocinho rico, filho de um homem malvado. Agora, vamos às gêmeas: 
- Ruth é a mocinha: boazinha, cordata, gentil, de personalidade fágil, fala baixo, não se impõe, evita bater de frente com quem quer que seja. Não liga para maquiagem e roupas; é professora, e é mais ligada ao pai. Supostamente virgem, até que revela que se entregou a um homem que a enganou prometendo casamento, engravidou e sofreu um aborto espontâneo, que manteve em segredo por medo de envergonhar a família.
- Raquel, a malvada, desbocada, fala o que pensa para quem quer que seja, sarcástica, gosta de beber, de fumar, detesta viver na pobreza, adora roupas e jóias, não aceita que ninguém mande nela; tem um relacionamento com um mau-caráter (sem ser casada e aparentemente sem pretensão de ser); é mais ligada á mãe, que a admira pela coragem e pela vontade de ter uma vida melhor.
Por aí já dá pra perceber o que nós, mulheres, devemos ser não é. Lola? Sempre boazinhas, tom de voz baixo, não lutar pelo que queremos e só transar fora do casamento se prometerem se casar conosco logo, senão envergonhamos a família! E percebe quem está do lado da filha boa? O pai, claro! O patriarca da família, bom, justo, honesto e imparcial. Enquanto a mãe, que apóia a filha do mal, tem clara predileção pela gêmea má e apóia suas atitudes. A mulher não é imparcial, faz escolhas erradas e não é digna de nossa admiração, pois prefere a malvada. Para bom entendedor, meia palavra basta, né? 
Agora vamos a algumas cenas que me lembro:
- Tem o mocinho (um verdadeiro banana), que gosta da Ruth mas se casa com a Raquel (oi?). Aí na lua-de-mel, Raquel bebe e resolve fazer não sei o quê que o mocinho não queria. Aí ele tasca: "Cala a boca, eu sou o seu marido e você tem que me obedecer!" E ela, muito, muito má, como não devemos ser nunca, debocha dele. Puxa, eu que sempre pensei ser tão legal, descobri assim que faço parte do time das víboras. Tsc, tsc. Agora vou me lembrar que tenho que me calar e obedecer meu marido, se quiser ser a gêmea boa.
- Uma outra personagem, a mãe do mocinho banana, já madura e com os filhos criados, resolve se divorciar do marido pra se juntar com um amor antigo (o Alemão). Um dia antes de ir embora, se oferece para ser voluntária num hospital infantil onde sua sobrinha trabalha, ao que a sobrinha responde "mas o Alemão não vai se importar?". Olha. A mulher tem mais de 50 anos, resolve se divorciar, e tem de pedir permissão pro cara que é só um futuro namorado pra trabalhar? Oi?
- A irmã do mocinho, uma rebelde, se casa com um cowboy. Mas ela se casa só pra fugir da família, sem ter nenhum envolvimento com ele. Ele, apaixonado, concorda em manter a fachada do casamento. Mas aí, pra tentar conquistá-la, começa a reclamar de tudo que ela faz, que ela não sabe cozinhar, que não sabe cuidar da casa, e passa a fingir que está apaixonado pela amiga dela. O velho clássico que mulher, pra se apaixonar, tem que ser pisada. Eu faltei à aula nesse dia? Porque eu odiaria um cara que me pisa, e cairia de amores por um homem que tenta me conquistar com gentilezas...
- Sampaio, um personagem secundário, é claramente um mocinho. É casado com Juju, uma mulher fútil, burra, interesseira. Que ele faz questão de mencionar, na frente de todo mundo. A novela toda é ele reclamando dela, falando que é burra (assim, sem cerimônia, na frente das visitas!). Um casamento de pelo menos 20 anos (já que tinham uma filha nessa idade). O cara era um mocinho, Lola, não se esqueça! Um cara do bem, honesto, íntegro. Que chama a mulher de anta. Que diz que ela não tem cérebro. Na frente das filhas e das visitas.
- O pai das gêmeas, o exemplo de homem íntegro, dá uma surra na mulher quando descobre que ela ajudou a filha má em um plano para prejudicar a gêmea boa. Uma surra. E todos aplaudiram, foi um capítulo muito assistido, o povo lavou a alma e ficou muito satisfeito com o corretivo empregado. Lembro muito bem que ninguém condenou o fato, afinal, a mãe mereceu, quem mandou ficar do lado da própria filha?
- E o pior dos piores: o pai da Tônia, que manda ela pra ser estuprada. É, Lola, é isso mesmo. O cara precisava de dinheiro pra pagar um detetive pra encontrar o filho desaparecido, e o malvadão da cidade oferece o dinheiro em troca de jantar com a filha do cara, que ele vivia perseguindo pela cidade. O pai manda a filha ir, sabe? Pra jantar, né Lola, que mal tem? E quando ela chega em casa, destruída, arrasada pelo que tinha acontecido, o pai faz uma cara de "fazer o que?" e deixa a filha chorando. Esse cara era legal, gente boa, um pai bacana, amoroso. Imagina se não fosse, hein?
Enfim, essas são algumas poucas cenas que lembro, mas o machismo é percebido na novela toda, em várias atitudes pequenas, coisas corriqueiras. Acho que o que eu contei serve pra ilustrar o que quero mesmo dizer: as conquistas femininas são tantas! Vejo mulheres jovens desdenhando o feminismo, achando que já conquistamos igualdade e pronto. Pensam que lutamos pelo direito ao voto e que essa foi a conquista maior, trazendo tudo o mais a reboque. 
Não conseguem perceber que há apenas vinte anos nossos maridos nos mandavam calar a boca e isso era aceitável, tanto que era exibido numa novela às 7h da noite; que achávamos engraçado um cara humilhar sua esposa na frente de todos; que um pai que deixava sua filha ser estuprada por um canalha era um bom pai; que todos concordavam que para se conquistar uma mulher era preciso pisar nela; que para fazermos um trabalho tínhamos que perguntar se nosso namorado/marido não se importaria; que o pai é uma referência moral e se bate na mãe é porque ela merece; que mulher boa é aquela que aceitava tudo calada, que não fumava, não bebia, que não envergonhava a família, não tinha voz nem opinião. 
Se uma novela atual mostrasse algo parecido, seria duramente criticada, ficaríamos revoltadas ao assistir. Mas há vinte anos, tudo isso era muito normal. 
E quem foi que ajudou a mudar a nossa mentalidade? À quem devemos agradecer pela evolução do comportamento nesses últimos vinte anos? Ao patriarcado? Acho que não...

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Corinthians x Chelsea - o mundo é nosso

     "O Corinthians manda avisar que o fim do mundo foi cancelado, afinal o mundo é nosso e fazemos com ele o que bem entender".


sábado, 15 de dezembro de 2012

Sobre carreiras


Sempre me pergunto se eu quero mesmo lidar com Direito por toda a minha vida. Não é que eu não goste. Muito pelo contrário. Direito é uma ciência interessantíssima, e acho que todo mundo deveria ter noções básicas sobre. Mas me falta a paixão.

A paixão que eu tenho pela literatura, por exemplo. O prazer que sinto em ler um livro e escrever uma resenha sobre. Ou o interesse que sinto por psicanálise. Ou a vontade que tenho de reviver as aulas de História do ensino médio. Ou o amor que tenho pela filosofia.

Mas aí surge outra questão importante: será que eu teria essa mesma paixão por tudo o que citei se elas me fossem impostas? Se eu dependesse delas para ganhar a vida?

Talvez o meu “problema” com Direito seja justamente o fato de ele, no mais das vezes, me ser imposto. Passei 5 anos estudando essa bagaça, outro tanto estudando para concursos. Por isso, a sociedade me cobra que eu faça algum proveito disso. Proveito material, bem entendido, porque para a maioria das pessoas, ter conhecimento, por si só, pelo simples fato de gostar de aprender, não conta.

E existe uma questão de orgulho próprio envolvido nisso. Toda vez que me passa pela cabeça largar o Direito e fazer outra faculdade, uma voz me diz: “vai desistir então?”. Você acaba encampando aquela idéia de “nossa, passei 5 anos me dedicando a isso, agora vou jogar fora todo esse esforço?”. Isso está ligado à eterna pressa em que vivemos, à correria da modernidade. Estamos sempre correndo para chegar o mais depressa possível a algum lugar. O problema é que não temos a mínima ideia de que lugar é esse.

Talvez o que mais me incomode no Direito sejam seus profissionais, não a ciência em si (que, repito, é das mais interessantes). É um mundinho muito restrito o desse pessoal; todos enfiados em seus casulos e cheios de si, presos a seus preconceitos e provincianismo. Vide a famosa questão de se chamar qualquer profissional dessa área de doutor. Eu me formei com gente que nunca leu um livro na vida, que não se interessam por política, que não apreciam música, que só assistem aos filmes que são lançamentos para não ficarem sem assunto, enfim, que não têm um pingo de cultura, mas que se acham o suprassumo da humanidade, por relevantes motivos como estar cursando Direito, ser de família "tradicional" (feudalismo manda abraço) ou usar ternos caros. Entendam: o problema não é a pessoa não ser lá muito culta - seria bobagem da minha parte exigir isso das pessoas, ainda mais num país como o Brasil, em que a educação não é lá essas coisas -, mas se achar especial quando não tem nenhum motivo para isso.

Nessas horas, procuro pensar que não se pode misturar as coisas. Sim, muitos que cursam Direito são grandessíssimos babacas. Mas o Direito não pode ser penalizado pelas práticas de seus operadores. Seria como largar sua religião porque o padre da sua cidade não lhe agrada. 

Outrossim, é curioso pensar que meu dilema é o oposto de pessoas que fizeram outros cursos. Na minha graduação estudei com gente formada em Odonto, Farmácia, Administração, Engenharia, Jornalismo, Matemática. E a maioria desses estava cursando Direito porque gostaria de ganhar mais. Até gostavam de seus cursos originários, mas se sentiam pouco recompensados financeiramente. Até eu que tenho um discurso de que dinheiro não traz felicidade compreendo essas pessoas. Não ganhar proporcionalmente ao seu esforço deve ser das coisas mais tristes. O x da questão nessa história é o conceito de “ganhar bem”. As pessoas costumam ser tão gananciosas que, se o que ela ganha não der para ter uma casa enorme, um carro 0km, jantar nos restaurantes mais caros, comprar roupas de marca e ter todas as tecnologias de ponta, dizem que seu salário não é “digno”.

Enfim, tenho muito medo de, daqui 20 anos, olhar para trás e pensar: eu deveria ter feito outra faculdade. Alguma que me despertasse paixão.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

O machismo por trás da música "Esse cara sou eu"

     Texto retirado do blog Ativismo de Sofá, de autoria da Gizelli. Disponível em http://ativismodesofa.blogspot.com.br/2012/12/o-machismo-por-tras-da-musica-esse-cara.html#comment-form



O Machismo por trás da música "Esse cara sou eu"


Morena e Théo, o casal principal de Salve Jorge
Sabe aquela música do Roberto Carlos que é a faixa principal da trilha sonora da novela "Salve Jorge", tema do casal Morena e Théo? "Esse cara sou eu"? Prestei um pouco mais de atenção na letra e preciso tecer alguns comentários sobre o assunto. Provavelmente alguém virá dizer "é só uma música" ou "é só uma novela". Mas a soma de todas as músicas e de todas as novelas são representativas. Uma grande parte da nossa cultura musical e televisiva são reflexo de determinados preconceitos e acho que sempre vale o questionamento sobre o que estamos de fato consumindo.

Eu assisto novelas. Confesso que no momento não tive a paciência de acompanhar a novela da Glória Perez, mas conheço novelas e sei que elas são mantenedoras de certos preconceitos, valores, status quo. De vez em quando, uma novela ousa botar uma discussão na mesa de jantar das famílias e é muito produtivo. Então tento não vilanizar as novelas, por saber que elas também promovem, vez ou outra, alguns debates. Se não fosse assim não haveria tanta polêmica em torno de colocar em alguma novela um beijo homossexual.

O amor romântico
exaltado desde a infância
As novelas, em geral, ainda são o campo de propagação de alguns preconceitos arraigados. E é o meio mais efetivo na cultura brasileira de manutenção do "amor romântico" como ideal de felicidade e por isso pode-se dizer que a música do Roberto está bem colocada dentro da programação. Assim como os contos de fada da Disney que ensinamos as crianças a gostar, assim como as revistas adolescentes, assim como as comédias românticas, as novelas continuam nos oprimindo em idade adulta. Continuamos acreditando que é somente através de uma relação heterossexual, monogâmica e tradicional, que seremos felizes. O eterno mito das mulheres incompletas.Alguém tem visto nas novelas uma "mocinha" sem "mocinho"? sem par romântico? Eu até vejo novelas em que o romance fica um pouco de lado, mas não o suficiente para afirmar que a personagem central é alguém que não precisa de outra pessoa para ser completa.

Na música do Roberto Carlos, a princípio, a gente pensa que o tal "cara" é alguém atencioso, alguém preocupado e gentil. Só que nessa atenção escondem-se alguns aspectos interessantes do que a sociedade espera de uma mulher, de um homem e do relacionamento entre os dois. E de como somo condicionados a idealizar esse sujeito que supostamente é "O CARA". Quando o Roberto Carlos diz:

"O cara que pensa em você toda hora
Que conta os segundos se você demora
Que está todo o tempo querendo te ver
Porque já não sabe ficar sem você"

Falarei um pouco por mim, namoro à distância com alguém e essa idéia de "não sabe ficar sem você" é perfeitamente superável. O amor romântico carrega consigo o conceito de posse. É impossível "ficar sem", "ficar longe", não observar o que a pessoa faz, onde ela está, com quem ela está. Pode parecer exagero meu, mas é verdade. Há quem afirme até que não existe amor sem ciúmes. Pois deixe eu falar logo, existe sim. Nós é que somos treinados desde pequenos para sermos incapazes de amar sem possuir. 


Se existe algo extremamente danoso é a idéia de posse. É exatamente essa coisificação da mulher que nos sujeita à violência, desde as simbólicas às violências físicas mais brutais. Daí surge o "crime passional" (expressão que normalmente é usada como eufemismo para feminicídio), da associação de paixão e posse. Que talvez comece nessa frase "Eu, que  não sei ficar sem você" e pode terminar em "Se você não é minha, não será de mais ninguém". Precisamos ter muito cuidado com os caras que não sabem ficar sem a mulher.


"O cara que pega você pelo braço
Esbarra em quem for que interrompa seus passos
Está do seu lado pro que der e vier
O herói esperado por toda mulher

Por você ele encara o perigo
Seu melhor amigo
Esse cara sou eu"

A canção está reafirmando que a mulher espera do homem que ele a proteja, que haja de acordo com esses papéis pré-estabelecidos de gênero em que a mulher é frágil e que sua segurança está nas mãos de um homem. E nem preciso comentar o quão heteronormativo é a afirmação que toda mulher espera por um herói. O cara, afinal, é mais uma versão do príncipe no cavalo branco.

"O cara que sempre te espera sorrindo
Que abre a porta do carro quando você vem vindo
Te beija na boca, te abraça feliz
Apaixonado te olha e te diz
Que sentiu sua falta e reclama
Ele te ama
Esse cara sou eu"

Aqui, por fim, ele traz a idéia do cavalheirismo. Bom, amigos, vamos deixar uma coisa clara, uma coisa é a gentileza. A pessoa que abre a porta do carro para mim, deveria abrir para todas as pessoas. Isso é gentileza. Se um amigo meu está com frio e eu ofereço o meu casaco, não estou sendo "cavalheira", estou sendo gentil. Gentileza é um tipo de empatia. A gente faz algo por outra pessoa porque essa atitude é típica de um modo de ser. Cavalheirismo é outra coisa, esse é o nome que se dá à idéia de que mulheres devem ser presas em uma redoma. É uma forma de nos chamar de incapazes. Incapaz de abrir a porta do carro, incapaz de pagar as próprias contas, incapaz de tomar as rédeas da sua vida sem um homem por perto. Cavalheirismo é, como o próprio nome fala, uma atitude que parte de um homem para uma mulher, não é um gentileza altruísta, mas uma gentileza com segundas intenções. As gentilezas de gênero são assim, mal intencionadas. Pode até ser que o cara não queira fazer sexo com você porque abriu a porta do carro, mas com certeza ele acredita que aquilo faz dele um homem mais respeitável. O problema é que também torna a mulher mais passiva, mais dependente (note que estou usando como exemplo a porta do carro, mas na verdade estou tratando do somatório de cavalheirismos que são comuns na nossa sociedade). Cavalheirismo é uma forma de dominação, sim.

É extremamente prejudicial para TODOS, homens e mulheres, que estejamos idealizando o tipo perfeito de ser humano com quem deveríamos nos relacionar, primeiro porque são expectativas vazias, já que as pessoas não vêm com manual de instrução com todas as especificações de fábrica perfeitamente anotadas para que possamos saber se aquela pessoa é mesmo a ~~ideal~~. E segundo, porque esse cara da música, que parece tão legal, soa como exemplo de "entitlement". O termo designa a sensação de merecimento que acomete alguns homens. Sabe quando um homem assedia alguém na rua? Ele faz isso porque sente que pode, sente que merece. E assim é nesse relacionamento, ele acredita que se a protege, se paga suas contas, se abre a porta do carro, se pensa nela... Ele tem poder o sobre ela para que ele seja amado em retribuição. Só que não se trata de uma operação matemática em que esses cavalheirismos e sentimentos dele são somados e o resultado é o amor correspondido.

É exatamente a falta de compreensão que não existe fórmula do amor que frusta tanto quem tenta se enquadrar nesses perfis ideais e acaba com a cara na poeira. Sabe o que isso acaba gerando? aquele mimimi mascu de "friendzone". Homens que não entenderam ainda, tomem nota: não é porque vocês tratam alguém bem que essa pessoa é obrigada a amar, ok? Vocês podem achar que estão sendo legais, mas as outras pessoas podem não pensar assim. Fiquem cientes disso e parem de acusar as mulheres de colocarem vocês na "friendzone", afinal amigos também fazem gentilezas e a mulher tem o direito de acreditar que você é só um amigo. Tratar as pessoas bem deveria ser algo natural e desprovido de interesses, se você é gentil esperando amor ou favores sexuais, você não é um cara legal. 

Por fim, ressalto que todas as características desse "cara" da canção, são frequentemente exaltadas, como se fossem aquelas que tornam esse homem, o ser humano ideal para fazer uma mulher feliz e isso é extremamente castrador e normativo, pois a felicidade de uma mulher pode nem sequer residir em outra pessoa. A felicidade pode estar em si mesmo ou em qualquer lugar.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

A estreia no Mundial

     Corinthians x Al Ahly, como diz o clichê, foi um jogo tenso, porque estreia do Timão no Mundial.

     A equipe brasileira entrou em campo com Cassio, Alessandro, Chicão, Paulo André, Fabio Santos, Ralf, Paulinho, Danilo, Douglas, Sheik e Guerrero.

     Não é a formação que mais me agrada, e nem me refiro à divergência 'time com centroavante x time sem centroavante'. Gosto do Guerrero e acho que ele tem a cara do Corinthians.



     O que me desagrada é ter dois meias no time, e dois meias lentos. No esquema proposto pelo Tite, todo mundo tem de voltar para marcar e/ou pressionar a saída de bola do adversário. Douglas desempenha bem a segunda função; Danilo não consegue acompanhar o lateral adversário.

     Sei que estou dizendo quase uma heresia, insinuando que Danilo deve sair do time, justo ele que foi tão bem na Libertadores e que já chegou a ser classificado como imprescindível por Tite e companheiros, pois tem a virtude de reter a bola na frente.

     Contudo, para a importante função de segurar a bola no ataque agora há Paolo Guerrero. Dessa forma, o principal argumento a favor de Danilo se esvai. Somado ao fato dele não ir tão bem na marcação, eu o substituiria por um falso atacante, Romarinho ou Jorge Henrique (o diferenciado), para dar mais velocidade aos contra-ataques e, ao mesmo tempo, ganhar poder de marcação.

     Claro que esta minha análise é circunstancial. Decorre, principalmente, do fato do Danilo não ter jogado bem hoje. 

     A polêmica, para a mídia, continua sendo jogar ou não com um 9. Casagrande, por exemplo, na transmissão da Globo, sustentou que não jogaria com Guerrero, pois este ocuparia o espaço do Paulinho. Não concordo com esta análise. Paulinho foi discreto hoje - assim como o time em geral - e não me parece que seja o fato de o time ter um centroavante que diminua o seu futebol.

     Para mim, voltando ao Danilo, é redundante ter dois jogadores lentos na frente, com a virtude de reter a bola. Como Guerrero está em melhor fase e Douglas tem muito mais qualidade no passe, eu sacaria o Danilo e colocaria o JH no lugar, deixando o talismã Romarinho para o segundo tempo - dependendo das condições do jogo, obviamente.

     As alterações que o Tite fez hoje corroboram o que eu disse. Ficou claro que JH e Romarinho entraram no jogo mais com funções defensivas que ofensivas. Mesmo assim, não gostei das substituições, porque saíram Douglas e Sheik, quando deveriam ter saído Guerrero e Danilo.

     Em suma: Danilo e Guerrero, juntos, não combinam. Como Guerrero vem jogando melhor, que saia o meia.

     Agora é esperar o domingão, que pelo jeito levará uns 3 meses para chegar.

     E espero que venha o Chelsea. Os ingleses terão a "obrigação" de vencer, o que deixaria o Corinthians mais tranquilo e jogando no estilo que melhor sabe, o contra-ataque.